Passos
2009. O sol escaldante de mais um dia de verão carioca.Nas favelas expostas ao primeiro raiar dessa grandeza a manhã é comum. Ao longe , próximo ao topo uma casinha. Simples, dois cômodos mal acabados, sem pintura, assoalho de madeira vencida.
Tereza. Moça no auge dos seus vinte anos, negra de verdade, olhos pretos atiçados, apimentados como safira, triste semblante de alma perdida, pele suave e aveludada. Abre as cortinas do seu barraco e compõe-se em mais uma rotina.
Sai cabisbaixa. As olheiras denunciam mais uma noite em claro, seus pés limpos se arrastam nas havaianas sujas da miséria .Desce degrau por degrau, imaginando estar ali a saga da sua existencia. Contempla vasto mar que, ao longe, mistura se ao céu em azul e imensidão, unindo-os em castidade, pureza aos olhos de Deus.
Olhares desconfiados acompanham Tereza que finge amarrar seus cabelos crespos para disfarçar. Pudera!Sua vergonha já não é oculta. A barriga gestante de 7 meses, fruto daquele marginal sem coração está a disposição das fofocas. Contendo as lágrimas toma seu ônibus 185 em direção ao seu trabalho, está atrasada.
Meia hora passada chega ao destino.Nos tropeços da vida vai ao chão. Um homem claro, voz rouca e melodiosa soa em seus ouvidos. As mãos solidárias vêm ao encontro das dela. À primeira vista sentem a palpitação emergir. O rio Negro une-se ao rio Solimões daquele verdes olhos de mata virgem. Levanta-se apressada, e no preto e branco da sua conjuntura põe- se a andar, cega pelas lembranças tempestuosas nem agradece. Vira a esquina do egocentrismo entrando na quitanda com porta amarela, mau cheiroso e esquálido ambiente, esquecido pela sociedade carioca.
Enquanto veste seu avental manchado pelas frutas estragadas que recolhe diariamente, Sr. Hiroshi, japonês antipático, ex combatente da segunda guerra mundial, exprime seu mau humor com palavras indecifráveis, porém Tereza não tem dúvidas, pois o velho aponta diretamente para o relógio e para sua gravidez embaraçosa. Não suportando a humilhação e o preconceito joga o avental sobre o balcão, sai desnorteada aos prantos pela calçada que fora trajetória por cinco anos... pela última vez.
Próximo ao sinaleiro, atravessa a rua sem perceber que ali um tiroteio entre bandidos e policias evacua toda a extensão da área. De repente, põe a mão em seu feto que mexe e estufa, o sangue escorre ventre abaixo, os sentidos fogem a razão. Tereza cai em meio ao cenário cinza do asfalto quente. Está desacordada. Os bandidos baleados pelo desespero, entram naquele escudo móvel embalados pelo acaso saem em disparada apenas um padece em agonia, finalizando sua vida bandida naquele trecho de escuridão.
Policiais e curiosos se aproximam de Tereza. Pessoas cobertas de piedade seguram os cordões de isolamento, ressentidas e revoltas pelo ocorrido.A sirene é ensurdecedora. Médicos e enfermeiros correm contra o tempo em uma cirurgia delicada a fim de conter o sofrimento daquela jovem sem identidade, mais uma entre muitas... Anônimo sofrimento.
Horas se passam, Tereza abre suas semi serradas pálpebras, a percepção ainda é frágil, pelo efeito da anestesia. Passa a mão pelo braço, agulhas trazem soro até suas veias deficientes em sangue, mais uma vez a solidão a acompanha, pais falecidos, parentes distantes, juventude lançada a sorte.
Ao fundo do corredor um rapaz se aproxima, pelo jaleco, um médico. Papéis e caneta, laudo insensível as dores da moça. Seu rosto ainda está turvo pela visão dela, até que a porta do quarto é aberta. Tereza sente seu coração lhe fugir pela boca. Ofegante e hipnotizada por aqueles olhos verdes conhecidos. Ele, sóbrio pelo desagrado da notícia, compõe-se em profissionalismo e dedicação: "Infelizmente seu bebê não sobreviveu, sinto muito". O choque da fatalidade fez Tereza se debulhar em pesar. O cavalheiro a abraça em humanidade e paixão, afim de amenizar aquela melancolia suprema. Ela sente duas sensações distintas... dor e amor, conforto e perda... que disparate do destino.
Alguns dias passados, a recuperação de Tereza foi impulsionada pelo cuidado daquele homem, zeloso e gentil, seu anjo protetor pela segunda vez.
Na porta do hospital, a jovem vê um horizonte de expectativas, porém tem consigo a eterna lembrança de uma semente pura e doce, fruto de uma atrocidade, fora amada mesmo em meio a preconceitos, companhia de alguém tão só. Tereza então, segue caminho nos braços do seu querubim. Sobe os degraus da dignidade, humilde na fortaleza do seu passado, visualiza aquele Cristo, que tudo pode e tudo vê, na santidade da sua fé.
"A FELICIDADE ESTÁ NOS MOMENTOS DIFÍCEIS EM QUE SENTIMOS A PRESENÇA DE DEUS EM NOSSA VITÓRIA"
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